sábado, 12 de abril de 2014

DIRETO DO THE GUARDIAN: GRANDE PARTE DAS MANIFESTAÇÕES DOS ÚLTIMOS DOIS ANOS FORAM ORGANIZADAS PARA DEFENDER PRIVILÉGIOS DE MINORIAS, DE CLASSES MÉDIAS ALTAS E ELITES QUE NÃO SE CONFORMAM EM ESTAREM FORA DO PODER...

Na Venezuela as maiores manifestações, que levaram milhões
as ruas, foram de apoio ao Governo Maduro.


VENEZUELA MOSTRA QUE PROTESTO PODE SER UMA DEFESA DE PRIVILEGIO. 

Direto do The Guardian por Seumas Milne

Se já não soubéssemos disso, a disparada nos protestos mundiais dos dois últimos anos ensinou uma vez mais a lição de que protestos de massa podem ter significados sociais e políticos inteiramente diferentes.
Usar bandanas e montar barricadas – ou ter queixas legítimas – não significa automaticamente que os manifestantes estejam lutando pela democracia e pela justiça social.

Nos últimos 12 meses, da Ucrânia à Tailândia, Egito e Venezuela, protestos em larga tiveram por objetivo, em alguns casos com sucesso, a derrubada de governos eleitos.

Em alguns países, as manifestações de massa foram lideradas por organizações da classe trabalhadora, em protesto contra a austeridade e o poder das grandes empresas.

Em outros, a inquietação promovida predominantemente pela classe média serve de alavanca à restauração de elites derrubadas.

Às vezes, na ausência de uma organização política, os protestos podem combinar as duas coisas. Mas não importa quem representem, na TV tendem a parecer iguais.

E as manifestações de rua vêm sendo tão efetivas em mudar governos, nos últimos 25 anos, que as grandes potências mundiais passaram a se envolver pesadamente no negócio do protesto.

Desde a derrubada do governo eleito de Mohammad Mossadegh, no Irã da década de 50, quando a Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana e o serviço secreto britânico MI-6 pagaram manifestantes pelos protestos contra o governo, os Estados Unidos e seus aliados são os líderes nesse campo: promovendo “revoluções coloridas”, bancando ONGs que promovem suas causas e treinando estudantes ativistas, alimentando o protesto nas mídias sociais e denunciando – ou ignorando – as ações violentas da polícia que reprime os protestos, de acordo com as conveniências de cada momento.

E depois de um período em que se vangloriavam de promover a democracia, eles estão voltando aos métodos antidemocráticos.

Um exemplo é a Venezuela, que nos dois últimos meses se viu abalada por protestos contra o governo com o objetivo de derrubar a administração socialista de Nicolas Maduro, eleito presidente no ano passado como sucessor de Hugo Chávez.

A oposição direitista da Venezuela há muito tem problemas com essa história de democracia, tendo sido derrotada em 18 das 19 eleições e referendos realizados desde que Chávez foi eleito pela primeira vez, em 1998 – em um processo eleitoral descrito pelo ex-presidente norte-americano Jimmy Carter como “o melhor do mundo”.

As esperanças da direita cresceram em abril do ano passado quando o candidato presidencial oposicionista foi derrotado por Maduro por margem de apenas 1,5% dos votos. Mas em dezembro, eleições nacionais conferiram 10% de vantagem nas urnas à coalizão chavista.

Assim, no mês seguinte líderes oposicionistas ligados aos Estados Unidos – diversos dos quais envolvidos no fracassado golpe apoiado pelos norte-americanos contra Chávez em 2002 – lançaram uma campanha para derrubar Maduro, apelando aos seus seguidores que “inflamassem as ruas com nossa luta”.

Com inflação alta, uma onda de crimes violentos e escassez de produtos básicos, havia muito com que alimentar a campanha – e os manifestantes responderam ao apelo literalmente.

Há oito semanas, eles vêm queimando universidades, edifícios públicos e estações de ônibus, e até 39 pessoas morreram [já são 40 os mortos].

A despeito das alegações do secretário de estado norte-americano John Kerry de que o governo está travando uma campanha de terror contra seus cidadãos, as provas sugerem que a maioria das vítimas fatais foi causada pela oposição, e entre elas estão oito membros das forças de segurança e três motociclistas decapitados por arames estendidos diante de barricadas.
Quatro simpatizantes da oposição foram mortos pela polícia, e diversos policiais foram detidos por conta disso.
Aquilo que vem sendo retratado como protesto pacífico tem todas as marcas de uma rebelião antidemocrática, eivada de privilégio de classe e racismo.

Formadas esmagadoramente por membros da classe média e confinadas aos bairros brancos e ricos, as manifestações agora se reduziram a atentados com bombas incendiárias e a combates ritualizados com a polícia, enquanto algumas alas da oposição concordaram em dialogar para a paz.

O apoio ao governo continua sólido nas áreas de classe trabalhadora, enquanto isso. Como disse Anacauna Marin, ativistas local no barrio 23 de Janeiro, em Caracas, “historicamente protestos eram uma maneira de os pobres exigirem melhora em suas condições. Mas aqui os ricos estão protestando e os pobres estão trabalhando”.

Não surpreende em nada, portanto, nas circunstâncias, que Maduro considere o que está acontecendo como uma desestabilização patrocinada pelos Estados Unidos, à moda da Ucrânia, como ele me disse. A alegação norte-americana de que essa é uma desculpa “infundada” é absurda.

Há volumosas provas de subversão norte-americana na Venezuela – do golpe de 2002 a cabogramas revelados pelo WikiLeaks que delineiam planos norte-americanos para “penetrar”, “isolar” e “dividir” o governo venezuelano, passando por contribuições financeiras continuadas e generosas a grupos oposicionistas.

Isso não acontece apenas porque a Venezuela controla as maiores reservas mundiais de petróleo, mas porque encabeça a maré progressista que varreu a América Latina na última década: desafiando o domínio norte-americano, recuperando recursos controlados por grandes empresas e redistribuindo a riqueza e o poder.

A despeito de seus atuais problemas econômicos, as realizações da Venezuela revolucionária são indisputáveis.

Desde que retomou o controle de seu petróleo, a Venezuela o vem usando para reduzir a pobreza à metade e a pobreza extrema em 70%, para expandir imensamente o serviço de saúde pública, a habitação, a educação e os direitos da mulher, para aumentar as aposentadorias e o salário mínimo, estabelecer dezenas de milhares de cooperativas e empreendimentos públicos, colocar recursos nas mãos de uma democracia participativa e de base, e bancar programas de saúde e desenvolvimento em toda a América Latina e Caribe.

Assim, não surpreende que os chavistas de Maduro continuem a contar com apoio majoritário. Para sustentá-lo, o governo terá de controlar a escassez e a inflação – e tem os meios para fazê-lo.
Os preços dispararam depois que as autoridades cortaram o fluxo de dólares para o setor privado, que domina as importações e a oferta de alimentos, enquanto boa parte dos produtos de preço controlado são exportados para a Colômbia e outros países para venda a preços muito mais altos.

Um recente relaxamento dos controles de câmbio já teve impacto. Apesar de todos os problemas a economia venezuelana continuou a crescer, e o desemprego e pobreza a cair.

A Venezuela está longe de ser o pandemônio que seus inimigos gostariam. Mas o risco é que, quando os protestos perderem o ímpeto, partes da oposição passem a recorrer à violência para compensar por seus fracassos nas urnas.

A Venezuela e seus aliados progressistas na América Latina importam para o resto do mundo – não porque ofereçam um modelo econômico e político pronto para ser copiado, mas porque demonstraram que existem múltiplas alternativas sociais e econômicas ao sistema neoliberal fracassado que ainda domina o Ocidente e seus aliados.

Os adversários do país esperam que o ímpeto de mudança da região tenha se esgotado com a morte de Chávez.

As recentes eleições da esquerdista Michelle Bachelet, no Chile, e do ex-líder esquerdista Sánchez Cerén, em El Salvador, sugerem que a maré continua a subir. Mas poderosos interesses, nesses países e no exterior, estão determinados a garantir que fracassem – o que significa que novos protestos ao estilo da Venezuela estão por vir.

PATATIVA DO ASSARÉ DECLAMA POESIA, FALA "AS VERDADES" AOS PODEROSOS RESPONSÁVEIS POR 500 ANOS DE ESCRAVIDÃO, DESIGUALDADE E MISÉRIA DE UM BRASIL QUE NUNCA DESISTIU DE SER MAIS JUSTO.


Patativa do Assaré, ninguém maltrata o povo sem ouvir "as verdades".


Quando eu era menino, minha mãe falava sempre que a coisa "esquentava" que o que tinha que acontecer  era "falar as verdades". Minha mãe estava certa, nada melhor que falar as verdades...

Patativa do Assaré: Senhor Doutor

segunda-feira, 7 de abril de 2014

DIRETO DO OBSERVATÓRIO DE IMPRENSA, LUCIANO MARTINS COSTA MOSTRA COMO A FOLHA DE SÃO PAULO CRIOU UM CLIMA PARA TENTAR INFLUENCIAR O RESULTADO DA PESQUISA DE SEU PRÓPRIO INSTITUTO.


As pesquisas foram transformadas em componentes de manipulação 
onde o resultado verdadeiro deixou de ser o mais
 importante para se tornar irrelevante.


A pesquisa que sumiu dos jornais
Por Luciano Martins Costa em 07/04/2014 na edição 792

O leitor e a leitora que costumam ler os jornais nas entrelinhas devem estar estranhando o fato de que, na segunda-feira (7/4), praticamente sumiram das páginas dos diários as análises sobre a mais recente pesquisa Datafolha de intenção de voto. Apenas a própria Folha de S.Paulo dá algum destaque ao assunto, no texto que anuncia uma entrevista do presidente do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão.

Pode parecer estranho, portanto, a quem costuma analisar criticamente a imprensa, que, depois de quase uma semana chamando a atenção para aquilo que deveria ser a hora da virada na política, os jornais tenham simplesmente abandonado o tema, depois de haverem destacado, no domingo, que a pesquisa apontava uma queda de 6 pontos porcentuais na preferência dos brasileiros pela reeleição da presidente Dilma Rousseff.

O que há por trás de tanto desânimo na imprensa com um tema que lhe é sempre muito caro?

Primeiramente, é preciso pontuar que este observador tem sérias restrições a consultas de opinião sobre determinados assuntos feitas por instituto que leva o nome do órgão de comunicação – a simples confusão entre os nomes pode influenciar diretamente na formação da opinião que será colhida. Basta uma questão para colocar areia no ventilador: quantos, entre os consultados pelo instituto, são leitores frequentes da própria Folha, ou seja, têm suas convicções alimentadas pelo jornal? Ou alguém duvida do poder de indução da imprensa?

Estabelecido esse ponto, voltemos à pesquisa propriamente dita e a seus antecedentes. No dia 1º de abril, véspera do início das consultas, a manchete do noticiário econômico da Folha era: “Inflação pode chegar ao pico de 6,72% às vésperas do 1º turno”. Coincidência? Muito improvável.

Nos dias seguintes, os três principais jornais de circulação nacional mantiveram em primeira página o escândalo da Petrobras, e nos dois dias que antecederam o anúncio da pesquisa foram unânimes em profetizar que a vantagem da atual presidente iria cair em função desse noticiário.

E qual foi o mote do Datafolha e da imprensa em geral, no domingo (6/4), ao analisar o resultado da pesquisa? O suposto pessimismo econômico que vem sendo diligentemente alimentado pelos jornais sobre uma base de dados altamente controvertida.

Vazamento de informações

Observe-se que alguns dados da pesquisa, que ainda estava em andamento, já haviam vazado na quarta-feira (2/4), primeiro dia da consulta, quando blogueiros especializados e sites de analistas financeiros começaram a anunciar que a presidente teria perdido grande parte de sua vantagem eleitoral, o que estaria provocando uma forte valorização de ações da Petrobras. Essa informação veio a ser destaque dos jornais no dia 3, quando os pesquisadores ainda estavam em campo.

Portanto, há aqui pelo menos duas questões relevantes a serem analisadas: o Datafolha vazou dados de uma pesquisa em andamento para os editores da Folha? Se as especulações do mercado, que foram veiculadas por sites respeitados entre investidores, não tinham fundamento, por que a Folha não os desmentiu antes de divulgar o resultado oficial? Pelo contrário, a Folha respaldou a ideia de que uma eventual queda na vantagem da presidente teria motivado o mercado, levando à recuperação dos negócios na Bolsa de Valores.

Essas perguntas não terão resposta, mesmo porque, se levada a fundo, a eventual vantagem de investidores, que teriam realizado lucros com ações da Petrobras com base em informação privilegiada, teria que ser investigada. Mais interessante é analisar o resultado da pesquisa em si.

Segundo o Datafolha, o ambiente social no Brasil está dominado “por crescente pessimismo com a economia e forte desejo de mudança”. Essa seria, segundo o instituto, a causa principal da queda das intenções de voto na presidente da República.

O problema é que, no cenário mais provável, tendo os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos como principais adversários, Dilma Rousseff ganharia a eleição no primeiro turno.

Se é verdade que há certo desejo de mudança, ele não se incorpora nos candidatos oposicionistas, mas se projeta, em primeiro lugar, na figura do ex-presidente Lula da Silva, na própria presidente Dilma e na ex-senadora Marina Silva, mas Lula e Marina não são cotados para disputar a Presidência.

O desejo de mudança é saudável, numa sociedade ainda marcada por fortes injustiças e carências. Mas o modelo defendido pela imprensa não parece convencer o eleitor.