sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

HAITI: DEPOIS DAS TRAGÉDIAS SÓ A ESPERANÇA.

COMO EXPRESSAR SENTIMENTOS EM RELAÇÃO AO HAITI E SUA TRAJÉDIA? SÓ COM DOR (INEVITÁVEL), MÚSICA E MUITA ESPERANÇA EM UM FUTURO MELHOR PARA NOSSOS IRMÃOS HAITIANOS...

Em 2000 o texano Win Butler foi para o Canadá, lá encontrou Régine Chassagne numa performance jazzística na Universidade de Concórdia no Verão de 2003. A família de Régine tinha abandonado o Haiti na época da terrível ditadura de François Duvalier, primeiro passaram pelo EUA e depois se estabeleceram no Canadá. inicialmente Butler e Règine formaram uma dupla, depois paulatinamente outros músicos foram sendo incorporados ao grupo até de se tornarem o quinteto Arcade Fire.

Antes de optar pelo som do Árcade Fire com o Haiti como referência, o que não podia deixar de ser devido a origem da banda tentei achar Haiti de Caetano e Gil, mas as versões que estão no Youtube não tem qualidade, então optei por este vídeo do Árcade Fire para expressar um sentimento de dor e também de esperança no futuro dos haitianos.

A dor é uma constante na vida dos haitianos?

Pela letra da música Haiti da banda canadense sim, mas ela também pode ser lida como uma forma de desabafo:

Haiti - Letra traduzida

Haiti, país meu.
Mãe ferida que eu nunca verei.
Minha família me libertou.
Atire minhas cinzas ao mar.

Meus primos que nunca nasceram assombram as noites de Duvalier.
Nada para nossos espíritos.
Armas não pueden matar o que soldados não conseguem ver.

Estamos escondidos na floresta.
Covas sem identificação onde flores nascem.
Escute os soldados berrando.
Para o rio nós iremos.

Todos os natimortos formam um exército.
Em breve nós vamos recuperar a Terra.
Todas as lágrimas e corpos
acarretam nosso renascimento.

Haiti, nunca livre, não tenha medo de soar o sino.
Suas crianças se foram.
Naqueles dias o sangue delas ainda estava quente.

Depois dessa reveladora poesia ouçam esta bela canção e prestem atenção no vídeo:


O vídeo revela o sorriso dos haitianos, mesmo na visível pobreza e injustiça imposta a eles por seguidos governos infames. Os haitianos sorriem a passam para nós um otimismo só visto aqui no Brasil, mesmo nos nossos piores momentos.

Então, não resta outra alternativa senão acreditar no futuro do Haiti e dizer com toda franqueza: Os haitianos só podem ser irmão dos brasileiros.

Flávio Luiz Sartori - flavioluiz.sartori@gmail.com

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

CHILE: PESQUISA REVELA EMPATE TÉCNICO ENTRE OS CANDIDATOS A PRESIDÊNCIA


Piñera e Frei no último debate: Pesquisa foi realizada antes do debate.

A direita brasileira, digo a oposição e o PIG, aguardam com ansiedade o resultado da eleição presidencial do Chile no próximo domingo, dia 17 apostando suas fichas na vitória do candidato de direita Sebastián Piñera que venceu o primeiro turno das eleições chilenas no último dia 13 de Dezembro de 2009.

Na realidade, tanto para oposição quanto para o PIG, criar fatos políticos contra o Governo Lula esta ficando cada vez mais difícil, não que faltem fatos, o que falta mesmo é credibilidade nos fatos criados pela oposição com ajuda do PIG diante da opinião pública brasileira nos últimos meses e a vitória de um candidato oposicionista de direita no Chile daria fôlego ao argumento de que presidentes populares, como por exemplo, Lula no Brasil e Michelle Bachelet no Chile que tem mais de 70% de aprovação popular, não teriam condições de transferir todo o prestígio que tem para candidatos apoiados por eles.

É fundamental lembrar que a direita ideológica no Chile tem um histórico de apoio popular muito maior que no Brasil, mesmo com as vitórias da articulação de centro esquerda que governa o Chile desde o fim da ditadura Pinochet, a direita chilena sempre se manteve forte.

Porém, não se deve desprezar a realidade de que as forças políticas de centro esquerda chilenas possuem um histórico de apoio popular muito forte, o que é comprovado pelo fato de que governam o Chile desde a redemocratização do país em 1989. Imaginar que o fato de Piñera ter conseguido 44% de votos no primeiro turno contra 29,6% de Eduardo Frei, candidato governista, enquanto que candidato independente Marco Enríquez-Ominami ficou na terceira colocação, com 20,1% dos votos e o candidato comunista Jorge Arrate ficou com 6,2%, garantiria uma vitória tranqüila da direita no segundo turno seria uma precipitação.

Pesquisa realizada entre os dias 01 e 09 de Janeiro de 2010 demonstra que o candidato governista Frei cresce de uma forma muito mais rápida e consistente do que o candidato de oposição Piñera. De acordo com a pesquisa realizada pela empresa Equipos Mori, a mesma que acertou que Mojica seria eleito presidente do Uruguai no final de 2009, Piñera tem 40,8% de intenções de voto e Eduardo Frei tem 39,4% de intenções de voto, sendo que a empresa Mori não informou quantos seriam os indecisos e os que estariam pensando em votar em branco ou anular os votos dos 19,2% que não declararam voto em nenhum dos candidatos. A pesquisa mostra que em relação aos votos válidos, Piñera teria 50,9% de intenções de votos e Eduardo Frei 49,1%. Nesse caso a diferença entre os dois candidatos seria de 1,8 pontos configurando um empate técnico entre ambos porque a margem de erro da pesquisa é de 3 pontos, de acordo com a empresa Equipos Mori. Foram entrevistadas 1.200 pessoas.

O fato das noticias sobre a pesquisa, cujas fontes foram, a agência Reuters/La Segunda Online e o jornal la Nacion on line, não terem esclarecido a divisão entre indecisos e intenções de votos em branco e nulos dos 19,2% impede uma estimativa de como poderiam se comportar os chilenos que nas datas das entrevistas da pesquisa responderam ainda estarem indecisos. O resultado da pesquisa demonstra que a maioria dos votos do candidato independente (20,1%) e do candidato comunista (6,2%) migraram para a candidatura de Eduardo Frei.


Mesmo que Piñeda vença, talvez seja por uma diferença ínfima. No entanto, de hoje até domingo, dia 17, a direita chilena e a brasileira junto com o PIG, que estão na torcida por Piñera, não poderão contar vitória, principalmente depois do candidato independente Marco Enríquez-Ominami que vacilava em apoiar Eduardo Freire ter finalmente declarado, hoje, apoio a Freire com fortes críticas a direita chilena.

Flávio Luiz Sartori – flavioluiz.sartori@gmail.com

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A SURPREENDENTE ENTREVISTA DO PROFESSOR LUIS CARLOS BALTICERO MOLION NO PROGRAMA CANAL LIVRE DA BAND NO ÚLTIMO FIM DE SEMANA

O professor Luis Carlos Balticero Molion, do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas é um ferrenho crítico da tese de que as emissões de gás carbônico provocadas pelo homem na atmosfera são causadoras do aquecimento global.

Para Molion essa discussão deixou de ser científica a muito tempo para transformar em uma ação política relacionada a economia mundial, na medida em que o argumento de frear o crescimento dos países em desenvolvimento com a justificativa de combater o aquecimento global representa, na realidade, o interesse dos das potencias mundiais.

Longe de querer assumir a imediata defesa da tese do Professor Molion, apesar de seus argumentos serem aparentemente embasados em uma lógica, sua entrevista no Programa Canal Livre do último final de semana, na madrugada de domingo para segunda, não pode ficar no esquecimento. Por isso mesmo indico o acesso ao conteúdo completo da entrevista no seguinte endereço:
http://www.band.com.br/canallivre/videos.asp (somente até o próximo dia 17 de Janeiro, Domingo).

A entrevista esta dividida em seis vídeos, assistir ela é de fundamental importância para que possamos assumir uma postura crítica em relação a realidade que esta presente na mídia atual, principalmente em relação a tese do aquecimento global tão bem defendida no documentário “Uma Verdade Inconveniente” estrelado pelo ex Vice Presidente dos EUA, Al Gore.

Flávio Luiz Sartori - flavioluiz.sartori@gmail.com



segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

DO CLÁSSICO "A HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA" DE JORGE LUIS BORGES - VII CONTO: O INCIVIL MESTRE-DE-CERIMÔNIAS KOTSUKÉ NO SUKÉ

O infame deste capítulo é o incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké, aziago funcionário que motivou a degradação e morte do senhor da Torre de Ako e não se quis eliminar como um cavaleiro, quando a apropriada vingança o cominou. É homem que merece a gratidão de todos os homens, porque despertou preciosas lealdades e foi a negra e necessária ocasião de uma tarefa imortal. Uma centena de romances, de monografias, de teses doutorais e de óperas comemoram o fato – para não falar nas efusões em porcelana, lápis-lazúli venulado, e em laca. Até o versátil celulóide serve-o, uma vez que a História Doutrinal dos Quarenta e Sete Capitães – tal é seu nome – é a mais repetida inspiração do cinema japonês. A minuciosa glória que essas ardentes atenções afirmam é algo mais que justificável: é imediatamente justa para quem quer que seja.
Sigo o relato de A. B. Mitford, que omite as contínuas distrações que opera a cor local e prefere atender ao movimento do glorioso episódio. Essa boa ausência de "orientalismo" dá margem a se suspeitar de que se trata de uma versão direta do japonês.


O CORDÃO DESATADO

Na desvanecida primavera de 17O2, o ilustre senhor da Torre de Ako teve de receber e hospedar um enviado imperial. Dois mil e trezentos anos de cortesia (alguns mitológicos) haviam complicado angustiosamente o cerimonial da recepção. O enviado representava o imperador, mas à maneira de alusão ou de símbolo: matiz que não era menos improcedente sublinhar do que atenuar. Para impedir os equívocos muito facilmente fatais, um funcionário da corte de Yedo precedia-o, na qualidade de mestre-de-cerimônias. Longe da comodidade cortesã e condenado a uma villégiature montanhesa que lhe deve ter parecido um desterro, Kira Kotsuké no Suké dava sem jeito as instruções. Às vezes, dilatava até a insolência o tom magistral. Seu discípulo, o senhor da Torre, procurava dissimular esse escárnio. Não sabia replicar, a disciplina vedava-lhe toda a violência. Uma manhã, contudo, o cordão do sapato do mestre desatou-se e este lhe pediu que o reatasse. O cavaleiro fê-lo com humildade, porém com indignação interior. O incivil mestre-de-cerimônias disse-lhe que na realidade era incorrigível, e que somente um campônio seria capaz de amarrar um nó tão torpe. O senhor da Torre puxou da espada e deu-lhe um golpe. O outro fugiu, apenas rubricada a fronte por um fio tênue de sangue... Dias depois, proferia sentença o tribunal militar contra o agressor e o condenava ao suicídio. No pátio central da Torre de Alço, elevaram um estrado de feltro vermelho e nele se mostrou o condenado e lhe entregaram um punhal de ouro e pedras, e confessou publicamente sua culpa e se foi despindo até a cintura e abriu o ventre com as duas feridas rituais, e morreu como um samurai, e os espectadores mais afastados não viram sangue porque o feltro era vermelho. Um homem encanecido e cuidadoso decapitou-o com a espada: o conselheiro Kuranosuké, seu padrinho.


O SIMULADOR DA INFÂMIA

A Torre de Takumi no Kami foi confiscada; seus capitães, debandados; sua família, arruinada e obscurecida; seu nome, vinculado à execração. Um rumor quer que, na idêntica noite em que ele se matou, quarenta e sete de seus capitães deliberaram no cume de um monte e planejaram, com toda a precisão, o que se produziu um ano mais tarde. O certo é que devem ter procedido de justificadas demoras e que algum de seus concílios teve lugar, não no cume difícil de uma montanha, mas numa capela em um bosque, medíocre pavilhão de madeira branca, sem outro adorno que a caixa retangular que contém um espelho. Apetecia-lhes a vingança, e a vingança lhes deve ter parecido inalcançável.

Kira Kotsuké no Suké, o odiado mestre-de-cerimônias, havia fortificado sua casa, e uma nuvem de arqueiros e esgrimistas custodiava seu palanquim. Contava com espias incorruptíveis, pontuais e secretos. Mais do que ninguém, zelavam e vigiavam o presumido capitão dos vingadores: Kuranosuké, o conselheiro. Este percebeu-o por acaso e fundou seu projeto vindicativo sobre esse fato.

Mudou-se para Kioto, cidade insuperável em todo o império pela cor de seus outonos. Deixou-se arrebatar pelos lupanares, pelas casas de jogo e pelas tabernas. Apesar de suas cãs, conviveu com rameiras e com poetas, e gente ainda pior. Uma vez expulsaram-no da taberna e amanheceu adormecido no umbral, a cabeça tombada sobre um vômito.

Um homem de Satsuma reconheceu-o e disse, com tristeza e com ira: "Não é este, porventura, aquele conselheiro de Asano Takumi no Kami, que o ajudou a morrer e que, em vez de vingar seu senhor, entrega-se aos deleites e à vergonha? Oh, tu, indigno do nome de Samurai!"

Pisou-lhe o rosto adormecido e cuspiu nele. Quando os espiões denunciaram sua passividade, Kotsuké no Suké sentiu grande alívio.

Os fatos não pararam aí. O conselheiro despediu a esposa e o mais jovem de seus filhos, e comprou uma mulher num lupanar, famosa infâmia que lhe alegrou o coração e relaxou a temerosa prudência do inimigo. Este acabou por dispensar a metade de seus guardas.

Numa das noites atrozes do inverno de 17O3, os quarenta e sete capitães marcaram encontro num desmantelado jardim dos arredores de Yedo, perto da ponte e da fábrica de baralhos. Iam com as bandeiras de seu senhor. Antes de empreenderem o assalto, advertiram os vizinhos de que não se tratava de violação às leis, mas de operação militar de estrita justiça.


A CICATRIZ

Os dois bandos atacaram o palácio de Kira Kotsuké no Suké. O conselheiro comandou o primeiro, que atacou a porta da frente; o segundo, seu filho mais velho, que completaria dezesseis anos nessa noite. A história sabe os diversos momentos desse pesadelo tão lúcido: a descida arriscada e pendular pelas escadas de corda, o tambor do ataque, a precipitação dos defensores, os arqueiros postados na açotéia, o direto destino das flechas aos órgãos vitais do homem, as porcelanas infamadas de sangue, a morte ardente, que depois é glacial; os impudores e desordens da morte. Nove capitães morreram; os defensores não eram menos valentes e não se quiseram render. Pouco depois da meia-noite, toda a resistência cessou.

Kira Kotsuké no Suké, razão ignominiosa dessas lealdades, não aparecia. Procuraram-no por todos os cantos desse inquieto palácio, e já desesperavam de o encontrar quando o conselheiro notou que os lençóis de seu leito estavam ainda mornos. Voltaram a procurar e descobriram uma estreita janela dissimulada por um espelho de bronze. Em baixo, de um pequeno pátio sombrio, olhava-os um homem de branco. Uma tênue espada estava em sua mão direita. Quando desceram, o homem entregou-se sem luta. Raiava-lhe a fronte uma cicatriz: velho desenho do aço de Takumi no Kami.

Então os sangrentos capitães arrojaram-se aos pés do odioso e lhe disseram que eram os oficiais do senhor da Torre, de cuja perdição e fim era culpado, e lhe rogaram que se suicidasse, como o deve fazer um samurai.
Em vão propuseram esse decoro a seu ânimo servil. Era um varão inacessível à honra; de madrugada tiveram de degolá-lo.


O TESTEMUNHO

Já satisfeita sua vingança (mas sem ira, e sem agitação, e sem lástima), os capitães dirigiram-se ao templo que guarda as relíquias de seu senhor.

Em uma caldeira levam a incrível cabeça de Kira Kotsuké no Suké e se revezam para cuidar dela. Atravessam os campos e as províncias, à luz sincera do dia. Os homens os bendizem e choram. O príncipe de Sendai quer hospedá-los, mas respondem que há quase dois anos que os aguarda seu senhor. Chegam ao escuro sepulcro e oferecem a cabeça do inimigo.

A Suprema Corte emite a sentença. É o que esperam: se lhes outorga o privilégio do suicídio. Todos o cumprem, alguns com ardente serenidade, e repousam ao lado de seu senhor. Homens e crianças vêm rezar no sepulcro desses homens tão fiéis.


O HOMEM DE SATSUMA

Entre os peregrinos que acodem, há um rapaz empoeirado e exausto que deve ter vindo de longe. Prosterna-se diante do monumento de Oishi Kuranosuké, o conselheiro, e diz em voz alta: "Eu te vi jogado à porta de um lupanar de Kioto e não pensei que estava premeditando a vingança de teu senhor, e te julguei um soldado sem fé e cuspi em teu rosto. Vim te dar satisfações". Disse isto e cometeu haraquiri.

O prior condoeu-se de sua valentia e lhe deu sepultura no lugar em que os capitães repousam.
Este é o final da história dos quarenta e sete homens leais – salvo que não tem fim, porque os outros homens que não somos leais talvez, mas nunca perderemos de todo a esperança de sê-lo, continuaremos a honrá-los com palavras.


Incrível: Uma visão fantástica sobre a honra em um Japãp que ainda vivia a era feudal na visão de Jorge Luis Borges.

Flavio Luiz Sartori